Puts! Sacanárre, meu… esse cara não…

4 dez

Leopardi Luís, o locutor misterioso que deixa saudades, que valem mais do que dinheiro.

A Salt Cover amanhece mais triste. Um de nossos mais antigos colaboradores nos deixou. Lêids and gentlemen, Leopardi has left the building.

Leopardi Luís faleceu aos 68½ anos, e era o braço direito de Sylvio Centos desde o jardim de infância:

“Ma era lá, naquela escolinha, no tanque de areia, que eu e ele, diziamos as coisas que todos os bebês falam, mas a gente arrebentava, nenhum bebê tatibitava melhor do que nós. Os outros bebês paravam para nos assistir girar pião, sortear fraldas, entre outras brincadeiras. E eu disse a ele: Cara, prepare-se, bicho, vamos fazer rádio nesta vida, vamos ser comunicadores. Ele concordou: ‘É verdade, Sylvio, vamos levar alegria às pessoas! Topo! Vamos cairrr pra dentroooo!’ E foi assim que tudo começou”, diz Sylvio, em um Cover Repórter de 2001.
Anos depois, o bairro inteiro já parava para assistir Vamos Brincar de Pular Corda, com Sylvio e Vesgo Leopardi girando a corda, amarrada no poste. Esconde-Esconde foi líder de audiência durante vários meses seguidos  – e foi aí que uma idéia passou a perseguir Leopardi: esconder-se.
Pouco tempo depois, Leopardi ajudava Sylvio Centos à vender seus apetrechos no Mercado da Lapa, no bairro onde Sylvio Centos nasceu e se criou. Dona Ermenegilda, que mora na Lapa desde antes do Descobrimento, conheceu os dois ainda bem jovens. “Mas como falavam esses garotos, viu… Um ficava meio vermelhinho, nossa. O outro, com aquele cinto alto anunciava muito bem, e fazia a gente ter vontade de comprar os bregets, os bagúio que eles vendiam. Comprei o meu  porta-título de eleitor, ainda que o voto feminino só seria fosse liberado 30 anos depois!…”
Não tardou para que Sylvio Centos adentrasse o rádio. E lá vinha Leopardi, logo atrás. Na Rádio Racional, Sylvio era um grande sucesso, mas, humilde como é, creditava parte dele sempre ào seu fiel sidekick.
“Atenção, mulheres do Brasil, estamos chegando no seu rádio! Aumente o volume, ôeee!”
“Okay, Sylvio! Este programa é um oferecimento de Kolidos, o creme dental pra você que se acha o tal!”

E por aí foi. A carreira artística e empresarial de Sylvio ia de vento em popa, e Leopardi o seguia, não por interesse, mas pela amizade pura e genuína. Leopardi seria, mais tarde, o primeiro baterista do grupo que mudou a história da música no Brasil, o Grupo Sylvio Centos.

Aí você se pergunta: Sylvio fatalmente se encontraria com a televisão.
E porquê Leopardi não apareceria nela? Quem explica é Manoel de Móbrega, para a revista O Cruzado: “Quando Sylvio fez seu primeiro programa, na Tv Tupã, não havia espaço suficiente no estúdio. Então combinamos que Sylvio ficaria em um canto e Leopardi em outro, cada um com um canto de cenário diferente, com duas câmeras. Travadas, nem tinha cameramen disponíveis no dia. Eu era o diretor de TV na ocasião. Só que, na hora H, deu um pau na mesa e ela não mudava a câmera! E sempre que Leopardi falava, Sylvio aparecia calado… Felizmente ele percebeu a situação, mas levou numa boa o programa, meio dançando, mantendo a atenção do público quando o Leopardi falava. E estava criada uma idéia de sucesso: a dupla televisiva onde um dos dois não aparece!” Daí em diante foi assim.

Leopardi nunca ligou de não aparecer. Era só ele perguntar: “Boa tarrde, freguesa, que horas são, por gentilezaaa?” que todos já sabiam que era ele. Ou então: “Alôôô, Seu Manuel Gonçalves de Oliveira, me vê um cafezinho aííí! “. Ele era até que bem reconhecido, sobretudo pelas cartas que chegavam das fãs – as que sabiam como ele era e as que não sabiam. Ambas até com certa regularidade.

Sylvio Centos passaria por várias emissoras, até se firmar na Salt Cover, à convite do Jornaleiro Dr. Roberto Marítimo. Que fez questão que Leopardi viesse junto: “É como essas duplas que estão surgindo por aí, Bastman & Rósbim, Tônico e Tínoco, Cosme & Damião, etc. O Leozinho (como o chamava caridosamente) é até mais que isso, é como uma parte integrante do Sylvio.”
Samir Salt e Cristián Cover concederam à Leopardi a carteira de funcionário número 1 (é que antes disso, era tudo na informalidade… aí chegou a Era Vargas e sacumé). “Ba zord. Mas vê ze não bede aviso brévio, safarda!”, disse Samir, na época, ainda com dificuldades com nosso idioma.

O primeiro programa de Sylvio Centos na Salt Cover foi Quem Desdenha, Quer Comprar, em 1962. E já nesse programa, Leopardi dava o ar de sua graça. Assista, direto dos prodigiosos arquivos da Cover:

“Olha, Sylvio. Sabe qual é a diferença entre a bicicleta e o banheiro? É que na bicicleta a gente senta pra correr, e no banheiro a gente corre pra sentarrr!”
“Mah, só você, Leopardi…”

“OK, Sylvio! Sabe o que é um pontinho amarelo no alto de um prédio?”
“Não, não sei, Leopardi!”
“É um Fandango Suicida, Sylvio!…”

“OK, Sylvio! Sabe porquê não dá pra pôr um kibe na geladeira? Porque ele esfirra! E sabe porquê não dá pra botar uma esfirra no copo? Porquê ela não kibe!”
“Há háeee… Já já o Samir passa na tua sala, Leoparde, essa ele adorou!”

“Ok, Sylvio! Quantos portugueses são necessários para trocar uma lâmpada?…”
“Ma, háá, aqui temos um só, o Oliveirão, que tem dois metros e quinze, nem precisa de escada, e ele quer falar contigo, Leoparde!”

E assim foi em diversos outros programas. Um que marcou época foi o Sinos de Jerusalém, uma gincana na qual Sylvio andava de asa delta, saltava de pára-quedas e nadava pelo litoral… de Recife, pra ficar mais emocionante. E Leopardi não ficava atrás, andando de picape de uma forma que inspiraria anos depois a criação daquela série Duro na Queda. Em 130% dos programas apresentados por Sylvio (só uns 200 títulos diferentes), Leopardi está presente, incluindo o programa Domingo no Padre.

Todos sabem  (ao menos os que acessam a “Página do Sylvio Centos” – site que ainda non ecsíste, mas tudo bem) que Sylvio já gravou mais de 40 discos. Aqueles, de marchinhas de batalha naval.
Mas poucos sabem que no lado B, Leopardi fazia participações muito especiais cantando R&B , smooth jazz e new jack swing, inclusive em dupla com Sylvio, para delírio dos fãs do programa.

O último trabalho de Leopardi foi no programa Gire Mais com Jequitinhonha, (aquele que as pessoas chamam de Aloprando) o programa que Sylvio Centos mais estava gravando ultimamente, e do qual, sem ninguém notar (só a MojoTV), Leopardi participou disfarçado no último Criamsa Experamsa, foi a última vez que ele foi visto na frente de câmeras profissionais.
Esta matéria tá longa pra k7, em breve retornaremos com matérias mais alegres, cöeridos telespéctadores.

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